Brasília, 7 de novembro de 2026
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Derrota de Trump amplia debate sobre aliança dos EUA com Israel

Vice-presidente JD Vance aponta apoio a Israel entre os fatores da derrota republicana no Congresso.

Relação entre EUA e Israel ganha destaque após derrota republicana. | Foto: Imagem ilustrativa gerada por IA

A derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), intensificou o debate sobre a relação histórica entre Washington e Israel. O resultado, que retirou dos republicanos as maiorias na Câmara e no Senado, ocorre em meio ao crescimento das críticas internas à ajuda militar norte-americana ao governo israelense.

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou que a relação com Israel foi apontada por um consultor de confiança como um dos quatro principais fatores que contribuíram para a derrota eleitoral do partido do presidente Donald Trump.

No dia da votação, Trump anunciou o encerramento da ajuda militar norte-americana a Israel, estimada em US$ 3,8 bilhões anuais e anteriormente prevista para continuar até 2028. A decisão surpreendeu aliados israelenses e ampliou as discussões sobre os rumos da parceria entre os dois países.

Para especialistas em relações internacionais, o episódio reflete mudanças na percepção dos eleitores norte-americanos sobre o apoio a Israel, especialmente após a guerra na Faixa de Gaza.

Ajuda militar a Israel supera US$ 300 bilhões

O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Bruno Huberman avalia que a suspensão anunciada por Trump está relacionada a uma mudança nas relações bilaterais entre Estados Unidos e Israel.

“Essa ajuda militar foi muito criticada. Os EUA fornecem ajudar militar para Israel desde o governo de John Kennedy (1961-1963). No primeiro governo Trump (2016-2020), essa ajuda se expandiu de forma muito agressiva”, afirmou o coordenador do Observatório de Conflitos do Oriente Médio.

Segundo o Conselho de Relações Exteriores, organização não governamental sediada nos Estados Unidos, Israel é historicamente o principal beneficiário da assistência externa norte-americana, incluindo recursos militares.

A instituição calcula que, desde a fundação de Israel, em 1947, até 2025, o país recebeu mais de US$ 300 bilhões dos Estados Unidos.

Desse montante, US$ 224 bilhões correspondem à assistência militar, valor superior ao dobro do destinado ao Afeganistão, segundo colocado no levantamento, com US$ 113 bilhões.

Huberman também destacou que o governo do democrata Joe Biden, entre 2020 e 2024, manteve o nível de apoio militar durante a guerra na Faixa de Gaza, conflito classificado por especialistas como genocídio.

A continuidade da assistência norte-americana provocou manifestações em universidades dos Estados Unidos em 2024.

“É uma ajuda sem qualquer contrapartida de Israel. O fato de Israel usar esses recursos para comprar armas fabricadas pelas corporações americanas foi muito criticado pela esquerda do Partido Democrata durante a eleição, embora, no poder, os democratas não fizeram nada muito diferente”, afirmou o pesquisador.

Eleição em Michigan evidencia críticas a Israel

A relação dos Estados Unidos com Israel também esteve presente nas campanhas eleitorais, especialmente em Michigan.

O estado elegeu Abdul El-Sayed, apresentado como o primeiro muçulmano eleito para o Senado norte-americano. Durante a campanha, ele criticou os gastos públicos dos Estados Unidos com assistência militar a Israel.

“Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”, declarou o senador eleito.

O professor Danny Zahreddine, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), especialista em conflitos no Oriente Médio, avalia que o anúncio de Trump sobre a suspensão da ajuda militar buscou impedir a vitória de El-Sayed em Michigan.

“A relação dos EUA com Israel traz hoje para o público americano um desconforto. Historicamente, o imaginário do mundo americano sempre foi muito favorável a essa relação. Isso começou a se desgastar com o genocídio em Gaza. Essa mudança começa em Gaza”, explicou.

As críticas ao financiamento militar de Israel passaram a ocupar espaço nas disputas políticas norte-americanas, envolvendo diferentes grupos de eleitores e setores partidários.

Aliança passa a enfrentar maior custo político

O diretor-executivo da Brazil Office Alliance, Paulo Abraão, afirmou à Agência Brasil que a Casa Branca reconheceu o custo político associado à manutenção da aliança com Israel.

“Eu não diria que isso significa necessariamente o enfraquecimento da aliança estratégica entre os dois países, mas sim uma mudança relevante nas condições políticas de sua sustentação”, avaliou.

Segundo Abraão, o apoio a Israel deixou de representar um consenso bipartidário entre democratas e republicanos e passou a provocar divisões eleitorais, geracionais e ideológicas.

“Acho que o mais interessante é que a eleição demonstrou que a política externa americana no Oriente Médio também pode ser cobrada nas urnas”, concluiu.

O debate também apareceu em votações locais realizadas durante as eleições de terça-feira.

Na cidade de Providence, em Rhode Island, aproximadamente 75% dos eleitores aprovaram uma medida que determina o encerramento de investimentos municipais em países estrangeiros envolvidos em práticas classificadas como limpeza étnica, apartheid, ocupação militar ilegal ou genocídio.

Embora não mencione Israel diretamente, a proposta foi apresentada pela Coalizão Providence Pela Palestina e recebeu apoio do prefeito democrata David Morales.

Israel reconhece críticas e contesta análise de Vance

As declarações do vice-presidente norte-americano provocaram reações entre autoridades israelenses.

O presidente de Israel, Isaac Herzog, reconheceu a existência de sentimentos contrários ao país entre setores da população dos Estados Unidos.

“Esses são sentimentos que estão no ar em nosso grande amigo e aliado”, afirmou, segundo o jornal The Times of Israel.

Herzog acrescentou que Israel sempre buscou manter uma relação bipartidária com os Estados Unidos, procurando preservar o apoio tanto de democratas quanto de republicanos.

O representante israelense na Organização das Nações Unidas (ONU), Danny Danon, contestou a avaliação de JD Vance de que a relação bilateral teria contribuído para a derrota republicana.

“É muito fácil culpar Israel por tudo, mas não é esse o caso”, declarou em entrevista à emissora i24News.

O diplomata também reconheceu a necessidade de prestar atenção às manifestações críticas a Israel dentro dos Estados Unidos.

As diferentes avaliações mostram que a relação entre Washington e Tel Aviv passou a ocupar um espaço mais controverso no debate político norte-americano, mesmo diante da longa trajetória de cooperação estratégica e militar entre os dois países.

Com informações da Agência Brasil